sexta-feira, 11 de abril de 2008

Minha mãe



Minha mãe

1
A minha mãe aqui está
Quietinha ao pé de mim
Sentada em sua cadeira
O sorriso que me dá
Duma ternura sem fim
É bem à sua maneira.
2
Diz-me que no quarto dela
Tem medo de estar sózinha
E passa o dia a espreitar
A mim nada custa tê-la
Perto de mim sentadinha
Para assim a sossegar.
3
Fica a ver televisão
Nem precisamos falar
Para que se sinta segura
Ela já não tem noção
Do sítio onde quer estar
Mas precisa de ternura.
4
À rua não posso ir
Fica em grande ansiedade
Com medo de eu demorar
Eu só preciso sair
Por qualquer necessidade
Se alguma coisa faltar.
5
Mesmo assim não vou deixar
Que fique só algum tempo
Seja de noite ou de dia
As compras que precisar
Espero pelo momento
Que ela tenha companhia.



Autoria-Arlette

quarta-feira, 5 de março de 2008

Minha vida



Minha vida
1
Esta vida traiçoeira
Desde menina a vivi
Sem saber porque razão
Sei que foi desta maneira
Que nasci e assim cresci
Com a dor no coração.
2
Meu pai trabalhava então
No ofício de Moleiro
Lá no Moinho de vento
Já existia um irmão
Esse filho era o primeiro
Rebento do casamento.
3
Nasci eu,uma menina
Para alegria do meu pai
Mesmo com sua rudeza
Com a filha pequenina
Daquele emprego ele sai
E foi viver na incerteza.
4
Mudou para outro lugar
Onde arranjou serviço
Na Vila do Vimieiro
Andava sempre a mudar
Os filhos sofrem com isso
E já iam no terceiro.
5
A minha mãe trabalhava
No campo,era o que havia
E com os filhos pela mão
E quando o meu pai ralhava
Ela apenas respondia
Que andava a ganhar o pão.
6
Os filhos já eram três
Que precisavam comer
E a vida era tão dura
O meu pai estava outra vez
Sem ter nada que fazer
É a mulher que o atura.
7
Nesta vida fui crescendo
Com minha mãe a sofrer
Para os filhos sustentar
Os filhos iam nascendo
E o meu pai sem fazer
Qualquer coisa para ajudar.
8
Nasce mais um filho,então
Já eram quatro a sentir
Bastantes necessidades
Meu pai resolve a questão
E de casa vai sair
Ignorando as dificuldades.
9
Seis anos de sacrifícios
De uma mulher lutadora
Que nunca as forças perdeu
O marido com os vicíos
Deixa todos,vai embora
Três anos os esqueceu.


Autoria-Arlette

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Minha infância



Minha infância

1
Comecei de pequenina,
A enfrentar o destino,
Ainda eu era menina,
Ainda quase não tinha tino.
Era frágil e indefesa,
Para viver em conflitos,
Mas resisti à tristeza,
Com meus irmãos pequenitos.
2
Tinha sete anos de idade,
De manhã ia pra escola,
Depois na parte da tarde,
Tinha de ir pedir esmola,
A minha mãe trabalhava,
Mas mesmo assim não chegava,
Para nos dar de comer.
3
Meu pai nos abandonou,
A mim e mais três irmãos,
A minha mãe nos criou,
E educou como cristãos.
Meu irmão mais velho tinha,
Oito anos, coitadinho
Como para a escola não vinha,
Arranjou um trabalhinho.
4
Mal vestido e com pés nus,
Por entre matos e tojos,
Andava a guardar perús,
Por esses matos a rojos.
Lembro quanto ele ganhava,
Só quinze escudos por mês,
O patrão,comer lhe dava,
Minha mãe,aos outros três.
5
Eu era tão pequenina,
E como era rapariga,
Ia pedindo a esmolinha,
Para encher a barriga.
A minha mãe trabalhava,
Do nascer do sol ao pôr,
Parece que não se cansava,
E nos dava todo o amor.
6
Foram três anos assim,
Mas todos sobrevivemos,
Mesmo com a vida ruim,
Muito ou pouco nós comemos.
Muito tempo não tardou,
Sem que meu pai regressasse,
Minha mãe o aceitou,
Na esperança que ele mudasse.
7
Meu Deus,como se enganou,
Logo andou em desacatos,
Desde que em casa ele entrou,
Começaram os maus tratos.
A nós ele maltratava,
Sem ter dó da nossa pele,
O pouco que trabalhava,
Ou ganhava ,era para ele.
8
Se a minha mãe lhe pedia,
Dinheiro ele resmungava,
E se ela um pouco insistia,
Dois ou três murros lhe dava.
Com tanta força batia,
Que ela ficava a sangrar,
E depois,no outro dia,
Não se queria levantar.
9
A minha mãe coitadinha,
Lá ia para a sua lida,
Não parava a pobrezinha,
Para ganhar a comida.
Desde que o meu pai voltou,
A vida não melhorava,
E mais um filho arranjou,
Era assim que ele ajudava.
10
Esse filho veio trazer,
Para mim muita alegria,
Porque afinal veio a ser,
A irmã que eu tanto queria.
Já eu tinha onze anos,
E aquela criancinha,
Foi nesta vida de enganos,
A boneca que eu não tinha.


Autoria:Arlette